Porque a bolha na verdade é uma bosta

Nos meus tempos áureos de estudante assalariada — hoje em dia regredi a apenas estudante, pra provar que a gente não é Digimon pra estar sempre digievoluindo —, tive um chefe coxa-prime naquela agência-que-paga-de-cool na Vila Madalena que me escutou um dia cantarolando Valeska Popozuda e me disse que não era bom pra uma redatora estar próxima a algo tão, abre as aspas aí no seu imaginário, sem cultura. Olha, veja bem, não tô falando de um cara que nunca teve acesso à informação. Tô falando de um cara já quarentão que frequentou as melhores instituições de ensino – brazucas e gringas. Um cara tão rico que poderia comprar um cérebro novo, com lataria zero bala, tinindo, tinta fresca, ar-condicionado e controle de bordo. Como aqueles do Pimp My Ride. E aí que ele me disse uma das coisas mais cretinas que minhas orelhas assimétricas (defeito de fábrica, perdão) já escutaram: “o conhecimento é uma bolha. Quanto mais você expande a bolha, mais chances tem de estourar e se misturar com a ignorância”. Eu guardei estas palavras tão nível 5 no créu da boçalidade não porque me pareceu sensato. Eu guardei porque isso sim foi o maior exemplo de falta de saber que já presenciei na vida. Porque lembrei de uma noite de sexta em que fui parar sem querer num sarau de uma galera do Capão Redondo e escutei uns poetas locais que não sabiam bem as regras de concordância verbal, mas parecia que tinham feito medicina na USP com especialização em cardiologia, porque disparavam umas palavras que tocavam o coração da galera. Porque lembrei de um amigo que fiz numa viagem que nunca teve oportunidade de terminar o ensino médio mas é o maior fã de Dostoievski do mundo. Sim, Dostoievski. Daqueles que manjam tanto que sabem até trechos do livro, a simbologia por trás de cada obra. E eu aqui, na segunda formação acadêmica, buscando como se escreve Dostoievski no Google. Porque lembrei que foi numa capelinha de periferia que escutei uma senhora com o maior vozeirão do mundo, cantando o que deixaria essa galera de conservatório gringo constrangida, com toda a técnica, sem nunca ter feito uma aula de canto porque tava ocupada demais trabalhando pra sustentar os 4 ou 5 filhos que tinha em casa. Porque entendi que conhecimento, cultura, não tem a ver com quantos Truffaut você tomou no café da manhã pra agora vir arrotar Godard na cara daquela galera que engraxa seu sapato ou limpa a sua privada ou abre o seu portão. O seu Beethoven vai chorar, mas vai ter funkeiro da favela aí conseguindo espaço nas rádios, na TV, nas festinhas topzera de playba. O seu Mondrian vai se desmanchar, porque vai ter sim graffiteiro (popularmente conhecido por você como “marginal”), deixando a marca dele no muro da sua rua, no prédio do seu trabalho, no túnel da sua cidade.

E quanto a tal da bolha, ela que se exploda. Que a gente se misture tudo, que a gente aprenda mais do outro, com o outro, ao invés de segregar, de barrar a troca de conhecimento como esse montão de honorável título universitário na parede de quem tem a sorte de ter um teto já anda barrando socialmente.

E se você acha que o que vem da periferia não é cultura, meu amigo, desejo de coração: que se exploda você também.

1 thought on “Porque a bolha na verdade é uma bosta”

  1. Hahah Oi, VIM XERETAR seu blog pra ver se tinha atualizações. TEM VARIAS! UHUUUUU
    Mas aff, quero desabafar. Meus amigos sempre sabem o refrão do funk do momento… E eu NADA.
    Dai eles cantam achando mo engraçado… E eu NADA. Sempre ficam parando o role pra mostrar o video-engraçado-viral-da-semana ou o clipe novo de alguém X que eu nunca ouvi falar… E eu NADA. Ou vem mostrar post de “x” sub-celebridade falando tal coisa ou cagando regra pela boca e todo mundo ta super ligado sobre isso… E eu nada

    Não sei se tem a ver com o texto, mas eu tenho um sério problema de não me identificar com NADA da cultura daqui do lugar que voce abandonou. Musica, filme, artes, carnaval, educação, literatura (ok, tem um cara que faz quadrinhos que é bom, mas ele mora na Australia e tem influencia americana) etc. Não sei se isso realmente me incomoda, mas to sempre sobrando nos assuntos-momento relacionado a cultura. Dai me sinto um pouco uma dessas pessoas que acham tudo uma bosta rsrs. Não me acho tão burrão e fechado, mas também não curto acarajé. Estranho… Sei lá.
    Bjoka, vey!!

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