Antes dele / depois dele

Antes dele, provavelmente a lâmpada do seu banheiro já estava queimada. Antes dele, sua saia bandage preferida já estava com um rasgo na lateral porque você tentou arrancar a etiqueta com a delicadeza de uma mula. Antes dele, você ainda prometia que segunda-feira ia começar a dieta e comprava uns 10kg de arroz integral e desistia da dieta na terça e continuava lá, com os 10kg de arroz integral no armário e mais uns 10kg de gordura na pança. Antes dele, você tratava sua ginecologista como terapeuta, sua depiladora como terapeuta e até a sua terapeuta como terapeuta, porque terapia nunca é demais. Antes dele, o seu Nelson, o porteiro de terças e quintas, dizia que você era a mina mais gente boa do prédio. Antes dele, você morria de rir assistindo vídeo dos anos 90 do La Bamba, no Playcenter. Antes dele, na verdade, você morria de rir por qualquer coisa. Antes dele, seu maltês já estava obeso – e você desconfia que, na real, o bicho já tenha nascido assim. Antes dele, você não sabia a diferença entre Pálio e Gol. E Corsa, então? Antes dele, sua caixa de emails imitava a sua cabeça e era uma bagunça só. Antes dele, você ficava bêbada na primeira dose e jurava pra todo mundo que tava bem, tava bem. Antes dele, em São Paulo, às vezes fazia frio e às vezes fazia calor. Antes dele, tinha conta pra pagar com vencimento pro dia 5.

Mas aí ele foi embora.

E, olha só, depois dele, a lâmpada do seu banheiro continua queimada. Depois dele, sua saia ainda tem um baita rombo. E você já desistiu da dieta pela 3ª vez só nesta semana. E o arroz integral (maldito seja) ainda tá lá. E sua gineco, sua terapeuta e sua depiladora continuam ouvindo suas neuras sobre gravidez, existência humana e qual o melhor esfoliante pra pele. E você continua a maior gente boa do condomínio. Depois dele, você ainda chora de rir com qualquer coisa, até com a notícia do Cox, o bebê cabeludo de Brighton. E seu maltês ainda tá uma bola de pelo e banha. E logo, logo já é sexta-feira e você vai ficar bêbada na 1ª dose e jurar pra todo mundo que tá bem, tá bem. Depois dele, seus emails e sua cabeça maluca ainda tão lá e aí. E o Pálio, o Gol e o Corsa continuam iguais, tão iguais que nem dá pra diferenciar. E em São Paulo continua fazendo frio e calor. E as contas pra pagar (ô, glória) continuam chegando.

É. Antes dele, tinha vida. Mas vai por mim, menina: depois dele, tem vida também.

Aliás, tem vida pra caralho.

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