Como dar ao meu advogado uma boa prova de amor

Como um bom advogado, a 1ª vez que eu disse pra ele “eu te amo”, me respondeu que precisava de mais do que palavras, precisava de feitos. Queria provas. Malditos penalistas. E, olha, não tem golpe mais baixo do que pedir para uma redatora isso. Eu só tenho caracteres, parágrafos e capítulos. Eu vivo disso.

Afinal, eu sou a mulher das palavras.

Por isso, hoje tava recontando na minha cabeça a nossa história e espero que conste em juízo como prova a chave que eu sempre deixo presa do lado de dentro da porta só pra, quando escutá-la despencar no chão porque está sendo aberta do outro lado, ficar feliz por saber que ele chegou em casa. E que sejam testemunhas as paredes que veem meu esforço para esconder um sorriso do tamanho do mundo – Sauri sabe – quando ele cruza essa mesma porta, despenteado e lindo, depois de um dia cheio, e torna o meu dia menos vazio. Espero que a promotoria tome conhecimento das vezes em que eu coloquei aquela canção que ele não conhece a letra e nem entende o idioma e o persegui pela cozinha cantando com o controle remoto todas as coisas que eu sinto e ele nem seu deu conta. Que a defesa use minhas digitais em suas costas como prova de todas as noites de colher e doce de leite em que ele adormeceu encaixado no meu abraço enquanto eu só agradeci aos céus pela sorte de dormir ao lado do homem dos meus sonhos. Que eu seja absolvida pela noite na pizzaria em que ele me perguntou se eu já escrevi sobre ele e eu menti que não, quando na verdade, tudo o que tenho feito nos últimos meses é escrever sobre – e para – ele. Porque ele é o sujeito determinado das minhas orações subordinadas e das minhas orações simples antes de dormir. Ele é o único presente em todas as minhas sentenças gramaticais e eu sei que tô sentenciada a amar o que é nosso até mesmo quando não mais seja. Ou quando a gente não queira mais ser. E nesse processo litigioso e sintático de me apaixonar pelo cara mais especial que já conheci, tomo o título de relatora e uso minhas palavras – que são tudo que tenho em minha defesa – para dizer, até quando não digo nada, o quanto o amo. E, se essa fosse a minha apelação final, diria: fica, carinha. Por esta história que construímos juntos e por mais vinte que podemos construir. Porque se digo que quero te fazer a segunda pessoa mais feliz do mundo (porque a primeira já sou eu pelo todo que você me faz), pode crer em mim.

Afinal, não sou só a mulher das palavras. Sou mulher de palavra também.

9 thoughts on “Como dar ao meu advogado uma boa prova de amor”

  1. Já leu Fernanda Young?

    Me considero um um homem de letras. Quando conheci ele, me permiti dizer três: s-i-m. Formaram elas uma palavra e também uma chave. A palavra definiu um caminho e a chave abriu infinitos outros.

    1. Acho que essa foi uma prova incontestável do quanto é maravilhoso estar apaixonada. As palavras fluem de uma forma linda, o sentimento ultrapassa o limite das letras. Amei o texto, muito bem bolado e escrito, parabéns Paula!

  2. Que texto maravilhoso! Eu fiquei tão emocionada e me identifiquei em alguns pontos. Meu namorado é engenheiro e situação é bem parecida. A coisa chave eu faço muito! Parece que é um alívio quando ele volta e não quer ser abraçado alegando estar suado e com cheiro de obra. Adorei! Me tocou muito! Parabéns!

  3. Que texto maravilhoso! Eu fiquei tão emocionada e me identifiquei em alguns pontos. Meu namorado é engenheiro e situação é bem parecida. A coisa chave eu faço muito! Parece que é um alívio quando ele volta e não quer ser abraçado alegando estar suado e com cheiro de obra. E quando ele fica todo irritado com alguma coisa ou até mesmo passa dias viajando e quando volta parece que até o gato se animou e as cores das paredes mais vivas! Parabéns!

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