Naldo, o segurança, e o assédio que não é tão inofensivo quanto pensam

A onda de assaltos noturnos no bairro onde eu morava coincidiu com a minha época de TCC, quando saia tarde da faculdade e encarava a epopeia gilgameshiana de conquistar um ônibus (sim, porque Terminal Capelinha na Avenida Santo Amaro a gente não pega, a gente conquista), depois outro e finalmente chegar no ponto em que descia. Mas aí tinha a parte nível-chefão da saga: ir sozinha do ponto até a minha casa, passando pela rua deserta na penumbra.
Foi quando contratamos o não tão nobre serviço de Naldo, o segurança.

A história já começa a ficar triste a partir do momento em que você imagina o quão vexatório internamente é para uma girl-power-convicta precisar de um homem para se sentir segura. Aquela situação, nos ergonômicos parâmetros mola bonnel da vida, era tudo, menos confortável. Funcionava assim: quando estava por descer do ônibus, ligava pro celular dele. Ele, que era responsável informalmente por zelar pela segurança da rua  mas sabe como é, fazia uns bicos de segurança particular para nós, donzelas indefesas , descia a rua e me acompanhava em sua moto, como um Kevin Costner tupiniquim e de bigode cafajeste, porém sem um “I Will Always Love You” (por sorte) tocando de fundo.

Mas como nada é tão ruim que não possa piorar (PMA que nos acuda), Naldo, o segurança, se empenhou bastante para transformar um simples percurso, me seguindo em sua motoquinha envenenada, em uma verdadeira caca de galinha. Sua carteirinha de guarda-costas já poderia ser confiscada quando, na primeira vez em que deveria me buscar, ele se escondeu e, me vendo subir a rua às pressas, jogou a moto na minha frente fingindo que era um assalto aos gritos de “passa tudo, passa tudo”. Só pela adesão ao humor pitoresco de me ver grudada no portão do vizinho, num tom bege-salmão-cozido-há-3-dias, dizendo “cara, faz isso não, sou cardíaca”. Não obstante esta forma de interação dinâmica com a pessoa que contrata seus serviços de segurança, ele resolveu partir para uma estratégia mais civilizada (em seu coração, não no meu) e menos alarmante de estabelecer contato comigo: puxar assunto. Como fui abençoada no ato da criação por uma língua que fala mais que a boca, demorei um pouco a compreender como toda conversa com Naldo, o segurança, sempre terminava com ele me perguntando se eu era solteira. Ou porque uma moça nova e bonita não tinha um namorado. Ou como seria bom ter um namorado para me proteger. Ou – não façam isso, caras – tocando minhas tatuagens para “vê-las” melhor. Porque, claro, tatuei em braile. E, quando caiu a ficha de que Naldo, o segurança, estava começando a me constranger mesmo quando eu não dava um pingue-pongue de bola pra ele, entendi a diferença entre flerte e assédio e dei os meus “não, não, não”. E foi aí que ele passou a agir de uma forma estranha comigo. E foi aí que eu fiquei com medo dele sendo minha única companhia na noite escura da quebrada.

Comecei a parar de avisar quando chegava no ponto para evitá-lo. Parecia mais viável estar à mercê de crimes hediondos do que ter aquele doido ao lado. Supus que, com meu inocente gelo como rescisão de contrato sem firma assinada na nossa relação informal de trabalho, ficaria tudo por isso mesmo e hasta la vista, Naldo. Mas não, foi aí que ele começou a me perseguir, dessa vez com a desculpa de receber o pagamento por um serviço não prestado já que eu fugia dele mais que o Cascão foge da ducha Tramontina. E a situação ridícula criada por mim mesma, por não saber como lidar com o pavor do cara que percorria míseros 200 metros dando em cima de mim de forma ostensiva, foi tamanha que, infantilmente, me escondi e pedi pra minha mãe (que é mais guarda-costas que qualquer ex-militar contratado pela Madonna) entregar o dinheiro. E assim acabou nossa história, porque no fim minha inadimplência de foragida  ó, que benção ser caloteiro às vezes, mas só à vezes  foi maior que seu amor de acossador.

Voltei a essa história de anos atrás porque lembrei que não foi só constrangimento que uma situação tão aparentemente simples e pequena me acometeu. Foi medo também. Porque, em um determinado ponto, comecei a duvidar das intenções de um cara que não parecia mais ser uma forma de proteção e, sim, de risco. E esse é só um exemplo besta, besta de como é foda ser mulher. Porque a gente começa a ter medo até de dizer não para aquela “paquerinha saudável”, como muita gente defende. Porque ofende não aceitar elogios exagerados quando a gente só quer chegar em casa em paz. Porque no imaginário de muita gente a mulher que se mostra relutante a um flerte tá só bancando a difícil como cês chamam mesmo? “Cu doce”, né?

Mas não, Naldos, Danuzas, Weinsteins, Allens, Cosbys, Polanskis, Deneuves, Mayers, vizinhos, amigos e conhecidos. Não é que a gente tá fazendo jogo duro. Duro é ter que ser mulher no mundo que ainda banaliza o assédio quando a cada 11 minutos aquela “paquerinha boba” é convertida em estupro.  E, definitivamente, entendam que isso não é uma caça aos homens, então, por favor, só parem de caçar a gente.

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