Não, não é sexy ser engraçada

Desde a adolescência fui alertada pela minha mãe sobre os riscos que eu corria ao frequentar festas onde estaria exposta aos ímpetos juvenis prejudiciais a uma personalidade inconsequente como a minha. Por isso ela sempre aconselhava: “filha, não use danças” ou “não faça danças sem proteção (visual nos demais convidados)”. É que ela sempre soube que meus quadris possuem a mesma malemolência sedutora de um cabo de vassoura. E eu só descobri que minha falta de molejo pélvico poderia ser o anticoncepcional mais eficaz quando, na formatura de uma amiga, um cara me tirou pra dançar e, como só entro na pista pra mostrar gingado, fui lá e fiz: a dança da minhoca saliente. O passinho da lontra perdida. A coreografia do maquinista perneta. E, claro, como não haveria de faltar: a técnica do robô na assistência técnica. Foi assim que, após uma partida de sacolejo erótico esbanjando todo o swing da minha bacia diante daquele desconhecido, ele se aproximou do meu ouvido direito (que é menos surdo que o esquerdo) e disse: “haha, você é muito divertida. Agora dança sério”. Não, cara. Como assim? Essa é minha dança séria. A mais séria que eu poderia praticar. Ele riu e, em meio a neblina de gelo seco, fugiu da minha loucura. E eu refleti muito sobre isso e sobre o porquê raios usam suco Tang disfarçado nos drinks chiques dessas festas caras. E cheguei à conclusão de que 1) sim, suco Maguary tem um valor mais expressivo e esses malditos organizadores de festa de formatura tão nem aí pra gente e 2) não, não é sexy ser engraçada. Não é provocativa o bastante a veia cômica que dispara trocadilhos em momentos inoportunos pra quebrar o gelo. Não é bonito contar a piada do seu Buce em eventos públicos. Não é sensual fazer imitação do filho do Boça com a Bel Pesce – o que no final acaba sendo a mesma pessoa, mas você divide em duas para forjar um talento maior do que realmente tem – num primeiro encontro. Mas, olha, vai por mim: o movimento é sexy, mas a gente não precisa. A gente tem que ser é a gente mesmo e ponto. E foi assim que passei o resto da noite abrindo rodas pela pista com meus passos transgressores de mulher que não sabe o que é sex appeal, mas sabe o que é se divertir e subir na mesa pra dançar cancan até o segurança obrigar a descer. E é assim que tô passando a vida tomando tombos e soltando a piadinha do “empurra não!” ou fazendo graça quando o clima tá chato demais ou mostrando que, às vezes, é uma delícia saber rir de nós mesmos porque destilar nossa verdade, mesmo que histriônica e fora do padrão, é libertador. Tudo porque, no fim das contas, ser quem a gente é, isso sim que é afrodisíaco. E, se uma pessoa não acha sexy o seu jeito diferente porém espontâneo de ser, dedique um único passo de dança a ela: um moonwalking.

Pra bem longe, de preferência.

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