O mundo não precisa de mais você para se cobrar

Quem me conheceu em 2014 viu nascer minha fobia por telefone tocando. E como eu parei de atender telefones tocando. Explico: tinha apenas 21 aninhos de suprema vitalidade quando, graças aos encargos da vida acadêmica, consegui a exímia proeza de me sujar em dois bancos diferentes. Taí, sempre achei que um dia meu nome brilharia no hall da fama, mas o máximo que consegui foi inseri-lo na vexaminosa lista vermelho-inadimplência do Serasa. E, cara, eu não aguentava mais a galera de banco me ligando. E eles ligavam sem pudor: era de manhãzinha, era tarde da noite. Inventei mil nomes pra dizer que, não, eu não era a Paula, mas sim a tia Cleydemara dela que atendia o celular mas que, sim, claro, passaria o recado. Às vezes eu era a prima Keityanne. Às vezes, quando atendia com minha voz grave matinal, eu era o tio Roberval. Até que cansei de atender gente que não ligava pra perguntar se eu tava bem com tanta perseguição, mas só pra saber mesmo quando eu ia pagar aquela dívida gigantesca com mais juros por segundo do que canção do Leandro & Leonardo (“por mim mesmo, por Deus, por meus paaaais” – tempos áureos). E um dia fiquei bem chateada comigo em pensar que eu, tão nova, já tinha fodido o meu nome. Lembrei dessa fase terrível quando, há alguns meses, me peguei me sentindo a maior fracassada do mundo porque tava num emprego que não me fazia feliz enquanto tem tanta gente por aí, na mesma faixa etária, fazendo coisas relevantes, ganhando prêmio internacional, desenvolvendo tratados diplomáticos, encontrando a cura da gonorreia, etc e tal. Baita bobagem. A gente só vai se sentir pleno mesmo quando entender que nosso relógio não corre como o dos outros. Tudo bem que você tem sei lá quantos anos e ainda tá penando num cargo junior enquanto seus colegas já ganharam 8 leões, macacos e a fauna toda. Tudo bem se seus amigos já deram a volta ao mundo em 79 dias (chupa, Julio Verne) e você tá juntando as moedinhas pra integração do metrô pra ir, no máximo, até o Grajaú. Tudo bem se todo mundo fala inglês, francês, espanhol, aramaico, libras e ainda a língua das serpentes (esse malandro estudou na Sonserina, certeza) e você ainda tá em dúvida se bota crase antes de nome próprio ou não. Tudo bem se você ainda tá moldando sua forma de se relacionar com as pessoas enquanto seus primos já estão casando, divorciando, casando de novo, competindo com o Fábio Jr, tendo filhos e passando férias no sítio em Pindamonhangaba. Sério, tá tudo, tudo bem. Cada um tem o seu tempo, o pêndulo do seu relógio não precisa seguir o ritmo de ninguém. Se cobra não, fera. Pra cobrar, os bancos já contratam bastante gente.

Eu que o diga.

11 thoughts on “O mundo não precisa de mais você para se cobrar”

  1. Já passei por uma crise existencial, e como é horrível! Eu almejava tanto coisa, conquistar tantas coisas antes dos 28,e chegar na idade e não ter feito nem a metade foi osso. Mas após momentos meio deprê. Passei a cobrar menos de mim, e deixar a vida levar, não conquistei nada do que pensei, mas conquistei muita coisa da qual não havia planejado.

  2. Que texto fabuloso.. Amei a mensagem que você passou aqui. Confesso que essa semana eu estava desse jeito, olhando os outros a minha volta e me sentindo uma fracassada sem direção.. mas nada como colocar os pés no chão e entender que o tempo as vezes passa diferente haha… amei as tiradas cômicas que você introduziu no texto e cara, me abraça hahaha

    Beijos,

  3. Me identifiquei bastante com o texto, infelizmente a gente acaba se cobrando demais, fazendo comparações tão desnecessárias e acabamos deixando a vida passar. É melhor relaxar e seguir em frente, com fé e paciência a gente chega lá. Ah, morri de rir com essa parte “Às vezes, quando atendia com minha voz grave matinal, eu era o tio Roberval”, hahaha! Ótimo senso de humor Paula!

  4. Adorei ler seu texto e me surpreendi bastante. Tenho 21 anos e recentemente apesar de muito protesto de muitos amigos e familiares, sai de um emprego que não me fazia feliz, muito pelo contrario, foi o emprego que tanto me adoeceu, fisicamente e emocionalmente. Mas depois disso também me perguntei o que estava fazendo da minha vida já que tanta gente que tem minha idade já fez inumeras coisas, já viajou para diversos paises e eu estou aqui, parecendo estar estagnada na vida. Mas compreendi que o meu tempo não é o mesmo dos outros, cada um tem seu tempo e ainda bem né?! Realmente não devemos nos cobrar, a sociedade já faz isso pela gente haha.
    Bjs

  5. Menina também penso que o nome é a única coisa que tenho por isso sou super cuidadosa com minhas contas, lembro de um rolo que meu plano de saúde aprontou com um dos médicos que consultei e passei uma semana recebendo ligações do consultório, nunca mais quero passar por uma coisa dessas.
    Sobre me cobrar, gente pensa em uma pessoa que se cobra por tudo, estou até tentando meditar para ver se isso melhora um pouco, porque as vezes atrapalha bastante a minha vida essa auto-cobrança

  6. Que texto maravilindo! Pensa numa pessoa que precisa ler isto hoje “euzinha aqui”, é realmente ruim estar com o nome negativado e ainda mais se sentir com a vida comparada a das pessoas que estão desenvolvendo, por que esta angustia ja é interna mesmo, o ruim e que quanto mais nos cobramos pior fica então temos que agir assim mesmo. Beijos

  7. Olá!
    ótimo texto, eu ando assim, me questionando sobre quando a minha vida vai mudar, quando irei alcançar pelo menos um trabalho, as vezes a gente não quer, mas acaba se comparando com os outros e se sente pior ainda. Adorei seu texto e me vi nele. Parabéns!

    beijos

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