Sempre tive problemas de conexão

Sempre tive problemas de conexão. E aí todo mundo sempre me pergunta: “como você consegue viver sem internet em casa?”. E vou te contar que quase deixei de viver, literalmente, no dia em que poderia me espatifar quando pendurei metade do meu tronco pra fora da janela do 13º andar com o notebook em riste — tudo isso na vã tentativa de roubar um mísero sinal de wifizinho da vizinhança pra terminar de baixar Mr Robot.

Logo uma série de hacker, olha como o destino é um safado irônico. E por não ter nenhum liberado — Vila Buarque só tem universitário e muquirana —, fui compelida a passar o resto da tarde lendo ou escrevendo ou cozinhando ou tentando ouvir o que meus vizinhos aprontavam colocando um copo na parede ou descobrindo que o diabo de copo na parede só funciona nos filmes do Bourne ou me arrependendo porque bisbilhotar os outros é feio ou fazendo qualquer outra coisa realmente relevante que não exigisse internet alguma. Porque foi o que de fato me motivou a não assinar uma banda larga: eu realmente não preciso. Mal paro em casa e, quando paro, tenho 46729 afazeres mais importantes . E, no fundo, sempre fui assim pra tudo: nunca me importei em não me conectar. Na escola, na faculdade, no bar, na vida. Sempre gostei de passar por aí sem criar laços que me obrigassem a ficar. Nunca fui muito de me enraizar. Sempre indo e vindo, incólume, sem criar vínculo. Só transitar, offline, entre todas esses megabytes de pessoas e coisas e sentimentos. Mas aí eu conheci esse cara. E logo eu, que nunca fui boa com conexão, tô agora tentando encontrar um jeito sem ser piegas de falar pra ele como acho lindo o jeito que o olho dele fica mais claro sob a luz. Tô tentando encontrar um jeito sem ser piegas de contar que acho graça em como ele demora com o enxaguante bucal ou como não conseguimos assistir mais de 2 minutos de filme juntos, mesmo que seja uma obra prima da sétima arte. Um jeito sem ser piegas de dizer que ele é uma obra prima da primeira à última arte quando ri jogando a cabeça pra trás e como eu realmente gosto de fazê-lo rir jogando a cabeça pra trás. Um jeito sem ser piegas de dizer que eu queria emoldurar a cena dele tocando violão na minha sala enquanto eu fingia estar ocupada demais com a abobrinha esquisita na cozinha. Ou de dizer que gosto dos nossos beijos preguiçosos, que nunca sei quando começam e não lembro como terminam, mas que duram uma eternidade, não daquela incômodas, pegajosas e que se arrastam, mas daquelas eternidades confortáveis, que dão vontade de morar, sabe? Sem ser piegas de dizer que eu pedi água aquela noite só pra assisti-lo levantar e se esticar diante daquele filete de luz que escapava pela porta da varanda e desenhava o contorno do corpo dele. Não, eu nem tava com sede. Um jeito sem ser piegas de dizer que eu posso ficar em silêncio todas as vezes que o vejo mas dentro da minha cabeça eu tô querendo dizer mil coisas — e uma delas é que acho que ele interceptou minha criptografia e conseguiu acesso a quem sempre foi uma rede cheia de senhas indecifráveis e signos confusos e sentidos adormecidos.

E logo eu, que sempre tive problemas de conexão, me vejo conectada àquele abraço e tentando encontrar um jeito sem ser piegas de pedir pra ele: vem, me decodifica por inteiro.

Eu sou uma rede aberta pra você.

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